quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

"Como los tientos de un lazo se entrevera nuestra historia"

Os versos acima, de Jorge Luis Borges, apelam para as características comuns de nossas historias, uruguaia e brasileira, onde heróis e razões se cruzam.
Aparício Saraiva, que lutou no Rio Grande na Revolução de 1893, ao lado de seu irmão Gumercindo, foi um herói de duas pátrias. E os protagonistas e episódios que envolvem sua morte, cruzam fronteiras.
A princípios de 1904, o governo do colorado Batlle y Ordoñez resolveu enviar tropas militares a Rivera por temer uma invasão brasileira, conseqüência da prisão pela policia de Rivera, e posterior fuga ao Brasil, do irmão do prefeito de Livramento. Aparício Saraiva proclamou então que o envio destas tropas violava o pacto dos blancos com o governo colorado e iniciou a guerra civil. A partir de meados de Janeiro de 1904, e durante nove meses, sucederam-se vários combates entre forças governistas e saraivistas. A batalha decisiva aconteceu na fronteira com Livramento, no povoado de Masoller, em 10 de setembro de 1904, na confluência dos limites dos departamentos de Rivera e Artigas. Ao cair da tarde desse dia, os combates se prolongavam já durante três horas. As forças do governo, que se abrigavam por trás de muros de pedra (que eram comuns nos campos antes dos alambrados), hostilizavam os revolucionários com fogo de metralhadoras.
Nestas circunstancias, Aparício Saraiva saiu a recorrer a linha de frente, para estimular seus soldados. Sua figura resultava claramente reconhecível pelo chapéu e poncho branco que usava, e por estar acompanhado pelo porta bandeira. Assim ocorreu de ser atingido por uma bala de Mauser, que atravessou o seu ventre e rins. Ferido mortalmente foi transladado ao Brasil, à fazenda dos Pereira de Souza, distante 5 quilômetros da fronteira, onde agonizou por dez dias vindo por fim a falecer. Seus restos foram enterrados no cemitério privado da estância do Cel. Pereira de Souza, a “hiena do Caty”.
Em 1920, apenas três dias antes de comemorar-se o 16º aniversario de sua morte o diretório do Partido Nacional, os blancos, resolveu repatriar seus restos mortais.
Era a volta à pátria de um herói que lutou até a morte abrindo o caminho ao voto secreto e às liberdades públicas no Uruguai.
No ano de 2004, por ocasião do centenario de sua morte, novamente o diretório do Partido Blanco se reúne para organizar uma cavalgada até Masoller para lembrar a morte de um herói de duas pátrias: Aparício Saraiva. E novamente esta fronteira viu o desfile de patriotas que não tem os limites como divisões.

Um comentário:

Felipe Martini disse...

O Brasil e o Uruguay não tem uma história tão entrelaçada e irmã. E Rio Grande e o UY, sim.